segunda-feira, 26 de maio de 2014

Dissecação do filme: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) [Atualizando: 13/05/16]



A crítica agora é sobre o filme mais tenebroso, original e brilhante já feito no Brasil, ''À Meia-Noite Levarei Sua Alma'' do maravilhoso salvador da pátria do Terror, diretor e ator de solo brasileiro, José Mojica Marins, do ano de 1964. Vamos falar dessa maravilhosidade cinematográfica.
AS INTRODUÇÕES
''Péssima noite para você... Corajosos''.

As filmagens começaram a ser feitas em 15 de Outubro de 1963.

O filme tem como introdução a atriz Eucharis Morais fazendo uma grande interpretação improvisada em sua fala como a velha bruxa/feiticeira do filme, estranhamente sucedido por outra introdução com o próprio Mojica, com a clássica fala de "O que é a vida?".

Morais segundo o próprio Mojica foi a única atriz profissional contratada para o filme (tirando o próprio Mojica) e se divertiu interpretando a bruxa, e justamente por ser a única atriz no filme ela foi posta para fazer a introdução improvisada. 

Como o filme foi planejado para ser exibido em sessões noturnas de cinema naquela época em São Paulo e de repente algumas outras partes do Brasil, aquela introdução da bruxa fazia muito sentido com o intuito de criar um clima propício para o filme, mas acabou que foi exibido também em outras faixas de horário, e por mais que os tempos fossem outros, quando fora feita aquela abertura tinha um efeito bem implicante e um pouco medonho nos espectadores mais despreparados, conservadores e religiosos, por aquele ousado desafio de assistir ao filme ou deixar o cinema, coisa nunca antes feita. As vezes alguém deixava o cinema... Mas tenho certeza, que mesmo com medo, muitos ficavam.

Não sei como era em 1960, mas certamente devia dar medo.

Uma das ironias do filme é que os personagens são apresentados nas cenas em que eles morrem, segundo Mojica:
A gente pôs justamente a parte final, que é quando se dá um adeus a esse planeta, a esse plano de vida e vai para o outro. Houve muita discussão quando eu quis fazer realmente essa apresentação da bruxa que fala, porque queira ou não, ela foi a primeira cena da fita, então diziam os técnicos e as pessoas que estavam me assessorando, como é que eu poderia dizer ao público para sair da sala de cinema, para não assistir o filme, se eu não sabia nem o que ia acontecer no decorrer de toda a produção. 
Tudo mundo numa tensão muito grande, não entendo como é que eu poderia fazer uma apresentação dessa, mandando o pessoal sair do cinema, eu achei que estava certo. A fita ia passar, para mim, em sessões especiais da meia noite, nunca esperei que de repente ela pegasse um circuito comercial como pegou, então estava preparando a fita para as pessoas de toda a meia noite do cinema, era um costume fazer na sexta-feira.

O fato do À Meia-Noite Levarei Sua Alma ser um filme de sucesso se dá, basicamente, por José Mojica ter acreditado, como ninguém, no potencial de sua obra até o fim, tendo encontrado inúmeras adversidades pelo caminho ele se propôs a fazer o filme nem que toda a equipe técnica tivesse abandonado as filmagens, felizmente isso não aconteceu, apesar de alguns atores terem manipulados a atuar, em certos momentos, pelo bem do filme.

Primeira aparição do personagem Zé do Caixão, ou Josefel Zanatas.

O filme teve duas introduções porque Mojica criou uma abertura fixa, mas incrementou com outra por acaso mas já com uma ideia do que ele queria fazer, com o extra de negativos picotados que sobraram das filmagens ao término do filme, sendo aquela que seria a primeira cena, filmada por último. Ele conseguiu encaixar o seu diálogo em forma de monólogo que por si só já era uma apresentação do que seria o personagem principal daquele filme, algo um tanto quanto apropriado para a época.

Aquela introdução no entanto se tornara uma das maiores marcas do José Mojica, que sempre valorizou muito em seus filmes esses diálogos filosóficos, e conjecturando sempre sobre a vida e a morte de formas distintas através do Zé do Caixão.

IMPROVISOS E DUBLAGENS
Como a fita foi assim...Bolada quase no decorrer do filme, não tinha um roteiro completo, era mais ou menos uma sinopse, eu ia bolando os diálogos de tudo que ia acontecendo, os diálogos sempre foram feitos no dia, hoje eu tenho um roteiro perfeito. Quando o filme terminando, na moviola eu fui fazendo o roteiro, então fica um roteiro perfeito, quem vê fala: Esse homem é perfeito, filmou tudo! Até uma pulga passando na tela, ele filmou.
As meninas são todas alunas minhas, pessoas que não tinha trabalhado, alguns atores ai fizeram Meu Destino em Tuas Mãos, fizeram até a cena do ''Aventureiro'' mas a maioria eram novatos de tudo.
A menina, completamente atrapalhada com os diálogos, eu falei: Não se importe, depois na dublagem a gente põe realmente a sua voz. O importante era movimentar os lábios e depois na dublagem a gente colocava a voz.

Os negativo do rolo de filmagens naquela época segundo o Mojica era diamante, ouvi histórias de que o próprio chegou a se desfazer de alguns móveis para poder comprar os tais negativos usados para o filme (não consegui nada na internet sobre isso).

Estranhado por todos, o coveiro maldito, Zé do Caixão!

Um filme de raça e genuíno do tipo, À Meia-Noite Levarei Sua Alma foi feito com o mínimo de orçamento possível, estimado em menos de 6 mil R$, já com a conversibilidade, o que - é preciso dizer, não era pouco para época e para tamanhas circunstâncias, aquilo era praticamente uma fortuna. Um Terror sessentista que, apesar de ''Trash'', causou espanto pela crítica, por ser algo tão diferente de tudo que se houvera feito no Brasil, desafiando os conservadores e sendo contraditório, sem se falar que trouxe um emblemático personagem original de origem tupiniquim, único em toda a América Latina, e com essa criatividade regada de poucos recursos, improvisos, e contanto com a imprevisível espontaneidade da improvisação dos atores amadores da escola de cinema da época, o tempo era curto e o filme tinha que acontecer, de um jeito ou de outro.

A segunda cena com o personagem, ele está em um cemitério, o coveiro, odiado por Deus e pelo mundo, é apresentado, como um homem soturno, que usa uma cartola e se veste muito bem, mas que somente usa preto. O 'sujeito esquisito' segue sendo apresentado e vemos a segunda personagem apresentada, sua esposa, Lenita, uma mulher infértil, que para Zé, é inválida como mulher justamente por tal fato.


- Ué, cadê a carne?
- Hoje não tem, você se esqueceu que é Sexta-Feira santa?
- ''Que me importa que seja Sexta-feira dos santos ou do Demônio! 
Eu vou buscar o que quero e nenhum carola vai intervir!''


Hoje eu como carne, nem que seja carne de gente!
- Cuidado Zé, o diabo 'tenta'.
- Se eu encontrá-lo, vou convidá-lo para jantar...

Em plena Sexta-Feira Santa, ele é servido num prato de comida sem carne por Lenita, fica indignado e parte em busca de carne, quando vemos a cena dele comendo sobre uma janela e zombando de um culto religioso (procissão) que passa ao fundo, este filme foi feito tão na raça que esta janela é artificial e as pessoas que passam ao fundo revezam a fila no estúdio, se passando por uma Avenida (Se eu não tivesse visto uma versão de comentários eu jamais saberia, ficou perfeito). Podemos perceber que ateu pra ele é apelido carinhoso...

Zé comendo carne de carneiro assistindo 
a procissão religiosa da Sexta-Feira Santa.

O filme continua e outros personagens são apresentados, assim prosseguindo. O filme conta basicamente (não spoilando), sobre a necessidade e obsessão de Zé em buscar um 'filho perfeito', o que seria a 'continuidade do seu sangue', e iria levar o mesmo sangue que si. Eu traduzo isso como, um filho que compartilhasse dos ideais e pensamentos de Zé, como um sublime cético e idealista, procriando para sempre. Para isso, Zé do Caixão começa a cometer assassinatos para cavar seu caminho até atingir seu objetivo.


Com um orçamento curto, a falta de grana influenciou não só no Elenco, como também nos efeitos especiais, trilha sonora e tudo mais. O filme foi feito inicialmente sem roteiro, somente uma sinopse detalhada o que também influenciou e muito, e podemos dizer que foi um dos elementos que mais contribuiu para o filme ser um clássico do Terror, a simplicidade de improvisação e espontaneidade foram elementos imprescindíveis. A ousadia pode-se dizer, de Mojica, foi algo mais que importante, basta-se dizer que nunca no Brasil alguém havia feito o que ele teve coragem de fazer. 



Vou deixar alguns trechos de texto bem legais que encontrei no site Revista Interlúdio, com diversas curiosidades:

Em 1953, aos 18 anos, Mojica fundou a Cia. Cinematográfica Atlas através de um sistema de cotas de participação pagas pelos amigos, e começou a ministrar aulas de interpretação com o objetivo de recolher fundos para a realização de projetos cinematográficos.

A produção foi bastante precária. Sem um tostão, Mojica vendeu o carro da família, pagando somente a alguns técnicos pelo trabalho: ao fotógrafo que o acompanharia sempre, Giorgio Attili; ao montador Luiz Elias, que também continuaria trabalhando com ele até o final dos anos 1960; ao cenógrafo José Vedovato e aos assistentes Ozualdo Candeias e Osvaldo de Oliveira, que se tornariam, posteriormente, diretores de cinema. O restante do orçamento foi angariado num sistema de “cooperativa” com os alunos da escola de atores: para participar do filme, cada um deveria desembolsar cem mil cruzeiros. O filme, que acabou custando seis milhões de cruzeiros, foi terminado, mas o diretor estava atolado em dívidas. Ele acabaria vendendo o filme, pouco antes da estreia, ao ator Ilídio Simões, que ganhou muito dinheiro com o negócio ao revender sua parte, pelo triplo do valor, ao investidor Nelson Teixeira Mendes, após a muito bem sucedida estreia do filme em São Paulo, em 09 de novembro de 1964 (BARCINSKI; FINOTTI, 1998, p. 115).

Para criar o Zé do Caixão, Mojica parece ter absorvido referências tanto da tradição do cinema de horror internacional quanto do folclore nacional, trazendo também elementos de sua própria biografia, como a dificuldade de sua primeira esposa para engravidar.


Seu filme, surpreendentemente bem sucedido nas bilheterias, daria origem à primeira onda consistente do gênero horror na mídia audiovisual brasileira, com quase uma dezena de filmes do gênero lançados nos anos seguintes, inúmeros programas de televisão e de rádio, músicas populares, além de histórias em quadrinhos, anúncios publicitários, festas temáticas, peças teatrais e vários outros produtos e eventos que tinham como objeto a figura de Zé do Caixão, rapidamente absorvida e consagrada pela cultura midiática brasileira.

Lentes especiais de vidro, usadas somente para tal cena.

O fator Cult do filme é fortemente inegável em todos os seus aspectos, tendo em vista que o filme foi feito em tal medida, nunca visou um lucro exorbitante, ou qualquer grande outro alcance mas também não se minimizou a nada, hoje ser Cult é uma consequência mais que previsível. Mas taxar tal belo filme de Cult é pra mim minimizar toda uma obra suada, que, não como nos dias de hoje, é feita só pra ser um filme exibido e taxado Cult, ou 'Pós-Cult', num futuro qualquer...

 A marca registrada do mestre Coffin Joe foi deixada, de maneira ''esboçada'' a obra-prima foi se lapidando, tomou forma e é uma prova viva de que nem sempre pra entender de Arte cinematográfica é necessário um diploma e currículo de Hollywood, não só istoMojica sempre defendeu que Cinema é o esforço, a criação na prática... E que pra fazer, é necessária a atitude de diretor, e seus dons, para honrar a câmera nas mãos.

Um dos pontos altos do filme, com Efeito praticamente em negativo.


Concluímos assim, que o filme é um dos mais importantes na cinematografia brasileira e da história dos Filmes de Terror de curto orçamento. Nunca antes alguém havia encorajado o espectador a abandonar o cinema antes da exibição, algo muito original da parte de Mojica. Hoje Zé do Caixão é praticamente folclore brasileiro e muito respeitado por amantes e admiradores de filmes de Terror, em todo o mundo. E assim À Meia-Noite Levarei Sua Alma é um dos filmes mais excepcionais de Terror já feitos no Brasil, feito na raça, um verdadeiro 'Trash genuíno'!

Efeito visual baratinado feito em purporina no Negativo.

O filme deu sequência a outros dois filmes, considerados oficialmente continuidades deste primeiro filme, ''Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver'' de '64 e ''Encarnação do Demônio'' de 2008, este segundo, bem mais recente, não considero um filme tão genuíno quanto os dois primeiros, já ''Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver'' é bom, tanto quanto primeiro, mas é um filme mais bem planejado, não é tão rodeado de um clima soturno quanto o primeiro filme, que foi rodado em grandes partes no escuro e a noite. Mas ambos compartilham praticamente dos mesmos padrões...


Para mim o encerrador da tríade, ''Encarnação do Demônio'', não segue o mesmo clima dos primeiros filmes, por isso não considero tanto, até mesmo a película é totalmente diferente, tendo sido lançado em Blu-Ray colorido, quando os outros dois penaram pra chegar no DVD, acho que se o Mojica tivesse feito pelo menos em Preto e Branco teria ''remetido'' mais aos outros filmes, ou pelo menos uma dublagem, que também muda, e muito, uma película. E apesar de parecer filme da globo, meu problema é mais com a Fotografia do que com Elenco.

Não é reclamando, mas a atuação de Mojica não foi tão boa nesta sequência em comparação com o primeiro filme, na minha humilde opinião, a sensação que tenho é de que no primeiro filme os negativos eram tão poucos e contados, que Mojica se empenhou mais na realização, com grande preocupação em não errar as falas e cenas, do que comparando com a continuação, onde em certas partes ele tem a expressão de que parece estar querendo rir... Só acho.

Foto dos bastidores de  ''Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver''.


Enfim, a crítica aqui é sobre o primeiro filme, então para mim o filme só pecou em pequenos aspectos, como a capa artística e algumas atuações de certos atores secundários, mas entendo que se trata de uma produção de baixo orçamento, onde Mojica fez o melhor que pôde, com o que tinha e com o que podia fazer. O Final do filme é relativamente legal, tendo em vista que a sequência começa de onde este termina, relembrando, ''À Meia-Noite Levarei Sua Alma'' não teve roteiro prévio, então acho que dá pra passar...


E considero um filme de Terror que entra na sessão do quesito Trash, então avaliando desta forma é um filme praticamente perfeito, da Fotografia à Trilha sonora e Efeitos sonoros repetitivos, e a dublagem que deu um tom totalmente inovador pro filme também ficou algo imprescindível.... O filme tem ótimas falas... E bom, por ter apresentado um cinema apaixonado que não depende de dinheiro, por mim, atinge nota máxima. Recomendado pra ter na coleção!

Rara foto dos bastidores de ''À Meia-Noite Levarei Sua Alma''.

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Trailer:
video

Fontes: Áudio comentado do filme

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2 comentários:

  1. resenha ta linda, valeu

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  2. Resenha mais do que perfeita, descreveu bem esse clássico!!!

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