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Crítica: Mar Negro (2013)

Direção: Rodrigo Aragão |Orçamento: 300 mil (segundo imdb) | Duração: 105 minutos | Data de lançamento: 10 de janeiro de 2014 (Brasil) | Fotografia: Marcelo Castanheira | Edição: Rodrigo Aragão | Elenco: Walderrama dos Santos, Cristian Verardi, Kika de Oliveira, Carol Aragão, Gisele Ferran, Joel Caetano, César Coffin Souza, Mayra Alarcón, Ana Carolina Braga, Gurcius Gewdner | Produção: Fábulas Negras Produções




Há algum tempo eu ouvia falar de "Mar Negro" de Rodrigo Aragão – do Fábulas Negras, um filme que eu pensava ser bom... Mas não tanto assim. Como bom procrastinador que sou, demorei uma eternidade para conferi-lo. E como descrevê-lo? É um filmaço, de raízes "verde-amarelo", e como poucos, com características que só filmes de Terror brasileiros poderiam ceder ao cinema, à sua maneira: Irreverente e criativo, exagerado, bem-humorado e renovador, isso tudo e ainda um prato cheio para fãs de gore e violência, no melhor estilo.

Do título americanizado: Bloodbath, é um filme que num de seu pôsteres promocionais trazia a sua própria descrição perfeita e ideal: "H.P Lovecraft encontra Fome Animal". É uma combinação de influências das mais diversas, mas com toques especiais. Fora um roteiro que à despeito das fórmulas rebuscadas, é bem original. É peculiar – tanto quanto qualquer filme chinês, indiano, africano, mas claro, bem melhor, e sem ter medo de brincar com clichês quase inescapáveis de um gênero onde quase tudo já se explorou.



Com muito do Terror à moda antiga, é um verdadeiro orgulho não só pelo gênero, como de sabê-lo como filme nacional, por ser como tem que ser, e desagradável para mentes mais minoritárias que acham que cinema brasileiro se resume às Globostas.

O tipo de maquiagem que hoje nos cinemas hollywoodianos não compensam mais tanto em frente aos efeitos "computadorizados", realistas, são de se tirar o chapéu, por si só.

O suspense escrachado com doses de comédia, e praticamente um "irmão de sangue" do Mangue Negro, com o mesmo clima de Noite do Chupacabras, este é um dos melhores gores já produzidos no Brasil, e compete com poucos, logo que poucos tiveram a audácia de ir onde este filme foi e reverter esforços para construção de algo tão oficial, e ter sucesso com isso.

A primeira coisa que mais me chamou atenção na obra como um todo foi o nível de qualidade visual, em sua exuberante alta definição, sempre excelentes ângulos de câmera, cenografias, muito acima da média para filmes de baixo orçamento feitos no Brasil. Depois então suas escatologias: É grotesco e gore, bizarro e divertido.


Embora que com um clima típico de filme de baixo orçamento, o Mar Negro mostra até um charme além do convencional, tem tudo para se refletir como um clássico gore brasileiro em 20 anos daqui para frente. Há de se dizer, já era hora de alguém reinventar as produções brasileiras, unindo forças para fazer um trabalho de qualidade. Apesar de todas as nítidas influências, o filme anda com seus próprios pés e isso é muito importante.

Com um pé sujo de arreia no mais que familiar visual de "A Noite do Chupacabras" e seus "peixes-aberração", aborda quase a mesma temática, uma perspectiva e concepção de cenários bem semelhante, passando-se numa cidadezinha costeira de interior, com muita gente engraçada e sempre humilde. "Claustrofóbicos botecos" de roça que só servem pinga e seus tiozinhos soltadores de pérolas com clientes de balcão. Não fez feio em abusar de um lado humorístico que acompanha quase o gore, o filme é divertido, por essas e por outras.

A produção anterior já tinha uma excelente qualidade visual e de produção, como dito antes, mas esse se destaca ainda mais, com cenários simples de uma vila de pescadores, atores familiares dos filmes do Aragão, mas diferenças mais extravagantes e atenciosas.

As dublagens refeitas, com os tais overdubs, também foram essenciais para dar uma outra ênfase no profissionalismo exibido do filme, desde meros diálogos, com seus melhoramentos na nitidez, à cenas com berros (que é o que não falta) e efeitos de som. Muitos dos filmes brasileiros já usaram essa técnica, À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964 – meio difícil fugir da citação desse clássico que é um dos maiores do gênero no Brasil, desde sempre), e os diversos da boca do lixo, pornochanchadas, que são sempre exemplo e referência de algo feito nesse naipe. E essa técnica pode ser citada ainda antes no Terror anos 40, por aí... É sempre bem-vinda, na minha opinião, e propicia uma identidade boa, que no caso desse filme, o que já era bom ficou formidável.



De notáveis influências gringas pudi perceber: "Zumbi 2 - A Volta dos Mortos" (1979) – um clássico absoluto de zumbis podrões, "Zombie - O Despertar dos Mortos" (1978) – Outro clássico; "Uma Noite Alucinante 2" (1979) – humor negro, divertidamente grosseiro; "Fome Animal" (1992) e "Um Drink No Inferno" (1996) – duas festas que desaguam num mar "vermelho-sangue"; Os mais diversos contos do Lovecraft, tal como suas adaptações, ex.: "Dagon" (2001) – cenografias até que lembram; entre outros. Todas excelentes fontes para se influenciar, seja brasileiro ou não, fórmulas certas para o sucesso com seus nacos de fãs e apreciadores, por todo o mundo.

Mar Negro talvez nem fosse tão divertido sem o seu excêntrico elenco de atores, uma junção de muita coisa boa, entre melhor no cinema de baixo orçamento brasileiro e sério, atualmente. Cada um cria uma cara bacana para os seus personagens. E atuações até legais, tirando as poucas falas das crianças do filme que mais pareciam estar lendo do texto na parede ou algo, mas nada tão desproporcional, digamos.

Os engraçados personagens: "Cavalo" Cansado, Madame Úrsula, Brôcoió; Deputado (César Coffin como sempre no papel de um "respeitabilíssimo" deputado, mais ou menos igual o político de Arrombada: Vou Mijar na Porra do Seu Túmulo!!! – com exceções como a de um maluco colecionador de xoxotas em Vadias do Sexo Sangrento ) Entre outros.



As maquiagens práticas e viscerais desse filme são algo para serem elogiados à parte. É algo notório que Rodrigo Aragão é um tipo de Tom Savini brasileiro, e sem avaliar méritos, quem dera se todo país no mundo tivesse caras como esses, que literalmente colocam a mão na massa para fazer o gênero acontecer. Essencial isso, por refletir o Terror em nossa própria cultura.

O clima amigável visto no decorrer das cenas é bem acalentador, bem amigável. Com alguns do atores de A Noite do Chupacabras, e outros que atuam em filmes do Petter Baiestorf,  (além do próprio Baiestorf), Gisele Ferran, Cezar Coffin.



Um fato curioso é que Aragão cedeu parte da maquiagem usada em seu filme para o Zombio 2, de Baiestorf isso porque, como o próprio Aragão já disse, cedeu parte do material usado no filme para Baiestorf, em seu filme (que foi gravado logo depois), é legal ver essa interação entre criadores e produção, lá fora isso sempre aconteceu, mas aqui dentro é quase uma peculiaridade.

Outra parte que merece menções substantivas: A edição. É daqueles filmes que você pode até não saber quem fez, quem são os atores, mas nota que quem o filmou, dirigiu, e editou sabia o que estava fazendo, estou falando de Rodrigo Aragão. E segue um certo padrão bacana, e realmente profissional.



E para finalizar, não há como deixar de elogiar as cenas finais, o final é um show de espantos, bizarrices, com inclusão de belas mulheres, com tripas e peitinhos. Tudo de uma vez, uma verdadeira avalanche de gore, belas mulheres, cabeças rolando e peitinhos. Com um desfecho hilariamente sanguinolento daquela super-festa, que de fato, não poderia lembrar mais Fome Animal, clássico do gore.

Não há como deixar de enfatizar a importância desse tipo de filme no Brasil, porque vale lembrar que muita gente consome esse tipo, e já que o nosso país nunca foi um grande protagonista do Terror como é os Estados Unidos, Itália, ao menos temos uma marca registrada e muito nossa: Um cinema de baixo orçamento e original que vem desde os primórdios com Mojica, até representantes atuais do Terror como são Aragão, Baiestorf, ente outros.



Eu particularmente acho que todo fã de filme de Terror brasileiro deveria dar uma chance para esse filme, não criemos síndrome de vira-lata. Às vezes pode nem parecer, mas ainda tem coisa muito boa saindo do nosso próprio quintal. E é tão bom ver que esse espírito do cinema independente continua vivo, firme e forte, unindo forças entre idealizadores de raça, adeptos da arte e demais.



Você é brasileiro e curte Terror? É indispensável. Tem na internet ai, mas quem quiser dar uma ajudinha pode comprar o DVD duplo por apenas 29,90 R$, com uma gama de extras, no site de vendas do Fábulas Negras.

Comentários

  1. Vou correndo ver esse filme! Tem pra baixar?

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    1. Sim. Você encontra para download em: http://fabulasnegras.loja2.com.br/

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