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sábado, 14 de novembro de 2015

Crítica: Zé do Caixão – 1ª Temporada, ep. 1


Com a duração de um 44 minutos, o Space trouxe nesta sexta-feira 13 uma forma esplêndida não só de tributo ao lendário José Mojica Marins (que nasceu também numa sexta-13) como também de uma nova visão (e empolgante) de sua trajetória adaptada à alguns dos fatos de sua carreira numa proporção à ser admirada por qualquer fã do Mojica, embora que não extremamente fiel e com as devidas ficções à parte, em níveis variáveis.

Já era hora de prestarem uma homenagem no Brasil como estas ao grande 'Zé', que (conforme todo mundo diz) as vezes parece ter mais prestígio 'lá fora'.

A minissérie se passa nos tempos pobres do final dos anos 50 no Brasil, e das cores aos cenários, vestidos e maneiras de falar, tudo combinou e se manteve fiel aos era nos anos 50, o episódio foi bastante cuidadoso nesse aspecto, em tempos que Mojica lutava por um cinema, numa época tomada pelo imperialismo em decadência do catolicismo desacerbado e cego que governava o país através de padres autoritários e seus jagunços conservadores, apresentando as sempre presentes críticas, críticas estas memoráveis dos filmes de Terror do Mojica, como no clássico "À Meia-noite levarei sua Alma" de '63.


Embora essa nova empreitada tenha uma produção curiosa e chamativa, acho que ficou faltando algo, mas o que sem dúvidas mais me chamou a atenção foi a atuação impecável e a maravilha de retratação minuciosa de Matheus Nachtergaele, o ator realmente se empenhou e 'encarnou praticamente' com grande maestria seu personagem obstinado, dos jeitos certos e conseguindo repassar também suas maneiras erradas e jeitos de falar, isso tudo fora a incrível semelhança que o ator conseguiu, extremamente convincente, quase nem parece que é outra pessoa.

A série é gloriosa em mostrar uma das maiores características de Mojica, a sua maneira única e convincente de criar um prestígio estranho ao cinema independente e pela forma de realizá-lo à qualquer custo, que seja vendendo promessas e usando pessoas, com riscos à parte, sejam eles convencionais, explorativos ou arriscados, com o defeito do desdém aos detalhes mas olhando para as cenas como um todo e apelando sempre para a lábia como sua maior cartada, e assim preocupando-se em dar uma ênfase persuasiva ao lado positivo nas dificuldades de fazer filme independente que era naquela época.

O mesmo podemos ver em alguns dos filmes dele no começo de sua carreira, o próprio método extremo foi usado no clássico "À Meia-Noite" que teve uma cena no qual Zé do caixão ateou fogo em um dos atores, que acredito eu, segundo a lábia do Mojica. O planejamento da cena foi (segundo o próprio Mojica no áudio comentado sobre o filme) botar fogo até doer, no estilo "quando doer você grita, ai nós jogamos água em cima". Acabou que o fogo destruiu o set por ter pego numa cortina.


Assim como em determinado momento em que o Mojica enfatiza que "fita brasileira precisa ter mulher pelada" a série faz jus ao dito e não se faz de falsa, não polpando palavrões, bundas e peitos, o que é, na minha opinião pelo menos, foi a maior vantagem de estrear num canal que eu não gosto tanto quanto Space (mas que têm prestado bastante respeito ao Terror nacional).

A série também mostra, logo no final, um determinado acidente em set, no entanto como um fato adaptado, na realidade, a atriz principal de Sentença de Deus, morreu afogada em '55, durante uma festa, além de outro acidente que decepou a perna de sua substituta, fora o fato de uma bala de festim ter acertado o rosto de um ator de seu filme.


Uma das cenas mais legais deste primeiro episódio foi uma nítida referência à aquela clássica cena do Mojica em frente à procissão de sexta-feira santa comendo um peru, no qual ele conseguiu fazer em contraposto à todos da produção, se pondo numa escada em frente a uma janela falsa enquanto que num ângulo específico a procissão decorria e os atores cenográficos se revezavam.

Em resumo de tudo o que acho, é extremamente gratificante ver essa série acontecendo, uma das grandes realizações do ano e que certamente será sempre lembrada, e que apesar de tudo serve também para mostrar para muitos brasileiros quem foi Mojica na real, além dos 'folclores' bobos que criou o emblemático Zé do caixão, e consegue o que acho mais importante nisso tudo, unir o útil ao agradável, dando uma definição do porque dele ser considerado um dos mais respeitados diretores do cinema nacional, e ponto final.
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