quinta-feira, 7 de julho de 2016

Crítica: Ted Bundy (2002)


Título Original: Ted Bundy
Direção: Matthew Bright
Roteiro: Matthew Bright, Stephen Johnston
Data de lançamento: 13 de setembro de 2002 (EUA)
Estrelando: Michael Reilly Burke, Boti Bliss
Duração: 1h, 39min.
Orçamento: 1.200.000 $ (estimado)



Hoje a minha crítica é sobre "Ted Bundy" (2002), dirigido por Matthew Bright, um filme mediano, mas que no oposto de outros biográficos sobre Bundy, pode ser considerado Terror. Com um ator escolhido brilhantemente para interpretar o papel de Ted Bundy, Michael Reilly Burke. Eu ainda acho que a atuação do Reilly Burke é o Bundy imbatível. Ao contrário de "The Deliberate Strange" (1986), esse filme não nos poupa de cenas agressivas, e de expor o lado escroto e de psicopata de Ted Bundy, toda sua loucura mórbida e perversidade sem tarjas. Mas é um filme impressionável, não é uma biografia muito fiel, e entre a simpática cara de galã de Mark Harmton (que interpretou "The Deliberate Strange") e o Michael Reilly Burke, com certeza eu fico com o Michael, mas as diferenças são enormes.



O bom de "Ted Bundy" é que não vai para o lado "entediante" da vida de Bundy, como quando ele se envolvia com campanhas políticas, coisa que já em outros filmes vemos e pelo menos para mim é um tanto quanto desnecessário e desinteressante.



Começamos vendo um Ted Bundy que sempre analisa as mulheres nas ruas, e já de cara, há uma grande ênfase nessa imagem, dando até a falsa impressão de que na cidade onde ele mora só existem mulheres jovens e atraentes, nenhuma senhora ou moço. Ele, Bundy, sorrateiramente passeia em seu fusca amarelo-ovo, enquanto as lindas jovens passam ao lado, quando não na frente de seu carro, sempre em slow motion e reluzentes ao sol, balançando os cabelos. Analista como bom predador que é, ele não se envergonha de encarar estarrecidamente nos olhos delas, enquanto sua imaginação doentia voa e voa.



Um outro lado, e esse até é novidade em filmes sobre ele, é a sua cleptomania, em todo o começo do filme com ele roubando coisas numa montagem de cenas até engraçada, ao som de trompetes e órgão numa música agitada, acredito é um ar legal para o começo de um filme de meio e fim sombrio, e com desfecho mais sombrio ainda. No entanto esse ''humor negro'' do começo é um alívio cômico para a tragédia que foi Bundy em seu rastro de dor, sofrimento e de toda a sua insanidade comportada.

A fotografia desse filme é a primeira impressão negativa que tive ao assisti-lo por inteiro, e também toda vez que revejo, sendo que vi ele pela primeira vez no Telecine Action (ou teria sido outro canal?) em 2006, mas nem por isso eu gosto menos, pelo contrário, acho não só o melhor filme biográfico sobre Ted Bundy, mas um dos melhores do período de 2000-2005 no cinema de Terror, uma época relativamente fraca, que estava numa determinada readaptação, com as novas tecnologias e suas respectivas formas de fazer cinema, e o começo da era do despenque do Terror.



Uma coisa bacana desse filme é a edição, em diversas cenas com a edição, nós podemos ver a dualidade do Bundy, como após a cena em que ele ataca a sua primeira vítima, em disparada em seu Fusca, um lado dele gargalha, e o outro se preocupa e se arrepende, e isso foi bem retratado, todos acreditam que isso Bundy realmente tinha um demônio em seu ombro e um anjo silenciado no outro.

Então, com menos de 12 minutos de filme, vemos o primeiro ataque de Bundy, num ato falho. Daí em diante não existe mais humor. Vemos então a relação conturbada que ele mantinha com sua namorada, num falso comportamento de mocinho.



"Ted Bundy" mostra também um lado bem interessante, no qual, nisso é absolutamente franco, que é o caso de extrema organização do psicopata, com a pura ironia dissonante de um quarto arrumadíssimo, com Bundy de roupas limpas e arrumado, enquanto passa batom nos lábios da cabeça de uma de suas vítimas, sobre a mesa do seu quarto.

A curiosidade mais interessante desse filme é que ninguém menos que Tom Savini fez uma participação. Como um detetive de Salt Lake, sem nome.



Uma das bolas-fora desse filme, para mim, é não ter feito a épica cena da fuga da cadeia pelo teto da prisão, e por sinal é bem bostinha a sua breve representação, simplesmente há um quadrilátero no teto e mais nada, quando na verdade todos sabemos que não foi assim (nisso o "The Deliberate Stranger" ganha disparado).

Na minha cena favorita desse filme, Bundy ataca e leva uma de suas vítimas para uma cabana na floresta, ela ainda tenta correr, sai em disparada, semi-nua, pela floresta. A sensação completamente agoniante que se passa em slow motion, como alguém que corre parado, num perfeito ângulo de câmera, enquanto Bundy vem vindo no seu encalço com o sorriso mais sínico do mundo em seu rosto, estampado de branco, como se fazendo cooper, é uma cena excepcional, e como filme de Terror, muito autêntica.



Como filme audacioso que é, de ir onde outros não vão e até mostrar cenas como (mesmo que indiretamente) o estupro da sua suposta última vítima, uma garota de 12 anos; O sexo simbólico entre Bundy e sua namorada (que relatou que se considerava sua primeira vítima); A execução de Bundy, entre outros.

O lado chocante, evitado por outros diretores, nesse filme é a essência, e é o que indico para fãs do gênero de Terror que buscam uma representação mais sincera da personalidade negativa do Ted Bundy realmente. Particularmente, é o meu filme predileto sobre ele, mesmo com todos os defeitos do mundo.

Compartilhe:

terça-feira, 5 de julho de 2016

Crítica: Nosferatu (1922)


Título Original: Nosferatu, eine Symphonie des Grauens
Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Henrik Galeen (screen play)
Baseado: Bram Stoker, "Dracula"
Estrelando: Max Schreck, Greta Schroder, Landshoff
Lançamento: 17 de Fevereiro de 1922 (Holanda)
Duração: 1h, 34 min.
Origem: Alemanha



 “Da semente do Demônio, surgiu o vampiro Nosferatu, que vive e se alimenta de sangue humano. Ele vive em cavernas horríveis, túmulos e caixões”.


Por Marina Alvarenga Botelho


Embora não tenha sido o primeiro, Nosferatu (1922), de F. W. Murnau, é considerado, por muitos o precursor de “filmes de vampiro”.  Sua importância para a história do cinema, e principalmente para o gênero terror, é inegável, não só pelas inovações técnicas e estilísticas que, posteriormente, aparecerão em filmes noir, mas por servir de inspiração para muitos cineastas.
O filme é parte do movimento estético denominado “expressionismo alemão”, que surge na Alemanha no final do século XIX, em diversas artes, como literatura, pintura e cinema. Emerge como uma crítica à sociedade burguesa, racionalista e mecanicista, e encontra na fantasia, no gótico e nas distorções do “real”, sua forma de expressão.


Friedrich Wilhelm Murnau foi um dos principais diretores dessa época, não só pelo tema de seus filmes, mas pelas experimentações cinematográficas de um meio que ainda era bem jovem, com seus 30 e poucos anos de existência. Por vezes, o filme, que é mudo, pode causar tédio ao espectador atual, que está totalmente acostumado com o terror explícito e o susto intenso vindo da antecipação. Mas é um bom filme para se falar de medo.

O filme conta a história de um casal, cuja moça, Ellen, é a própria encarnação da pureza – “por que você as matou, flores tão bonitas?”, diz ela ao marido quando ele lhe entrega um buquê de flores. Hutter, o marido dedicado, trabalha com um agente imobiliário, que o envia para a Transilvânia para vender imóveis ao Conde Orlok, que demonstrara interesse em comprar uma grande casa na cidade.


Conde Orlok é Drácula Nosferatu, um sujeito/vampiro muito esquisito, alto, magro, muito pálido, com longas orelhas, nariz grande e curvado, dentes frontais salientes, dedos compridos e finos (e uma carinha super fofinha). Uma figura bizarra e lenta, bem suspeita à primeira vista. Mas Hutter parece estar sempre feliz e, mesmo tendo um cara querendo chupar o sangue de um corte que sofreu em seu dedo, acha que está tudo bem.



Os acontecimentos estranhos não param por aí. Uma foto de Ellen cai próxima ao Conde, que fica fascinado pela mesma e diz: “Que belo pescoço sua mulher tem, vou comprar a casa vazia em frente a sua”. Já teria dado tempo para sair correndo, mas Hutter, feliz com a venda, não conseguiu ligar os pontos, e acaba se tornando uma vítima de Nosferatu. Passa a ser perturbado por sonhos horríveis, e com as duas picadas no pescoço, escreve uma carta a Ellen achando que fora picado por mosquitos.

É a partir daqui que começamos a entender o poder de Nosferatu. Os pesadelos passam a ser constantes, tanto para Hutter, quanto para Ellen. A moça pressente que algo ruim está para acontecer e sonha com a figura esbranquiçada de Nosferatu, que começa já a perseguir sua alma antes mesmo de chegar à cidade.


Com o passar do tempo, Conde Orlok sai de mudança para a cidade do casal, enquanto Hutter, meio confuso, começa a entender o que está acontecendo e tenta voltar correndo para sua amada. O Conde vai de navio, dentro de seu caixão, e coisas terríveis começam a acontecer.

O que a tripulação chama de “praga”, nada mais é que a morte lenta chegando a todos eles. Cada cena em que Nosferatu aparece é única e assombrosa, capaz de deixar o espectador vidrado. Esse vampiro, que vem da própria semente do diabo, é uma criatura das sombras, literalmente. Sua silhueta é mais poderosa ainda do que sua imagem, e a forma como vai espalhando seu terror e fagocitando suas vítimas em sua própria sombra, é capaz de tocar nossos medos mais profundos.

Cada rápida aparição de Nosferatu trabalha diretamente com o nosso medo. Medo de ser a próxima vítima, medo de ser controlado por ele – não há como fugir. Se ele gostar do seu pescoço, já era. No porão do navio, cenas clássicas: uma aparição do vampiro e uma levantada de supetão do caixão, algo sobrenatural.


(A montagem, nesse momento do filme, fica um pouco confusa, ainda com resquícios de um primeiro cinema e a inexistência de uma montagem paralela convencional, com a aparição de um doutor/professor).

Quando o navio chega à cidade, já não há uma vivalma a bordo. Todos morreram por causa da “peste” - chegam à conclusão os oficiais da lei. Conde Orlok sai do navio ainda durante a madrugada, carregando seu próprio caixão – o que é incrível, beirando a comicidade, pois nunca vi nenhum outro vilão fazendo algo do tipo. Sua mera presença na cidade começa a aumentar sua influência nas almas controladas por ele. O agente imobiliário que havia mandado Hutter à Transilvânia acaba sendo enviado a um hospício, tamanha loucura que se apossa dele. Ellen também vê seus pesadelos aumentarem e seu coração inquieto. Enquanto isso, Hutter luta para chegar à cidade e salvar sua amada.


A essa altura, a cidade está em toque de recolher, cada um trancado em sua própria casa, todos com medo da “praga”. Já são vários caixões sendo carregados pelas ruas com os corpos das vítimas do vampiro, que durante a noite, consegue chegar ao quarto de Ellen. Em mais uma aparição de tirar o fôlego, o clímax do filme é de deixar a audiência silenciosa. A sombra de Nosferatu entra no quarto, rouba a alma e o coração de Ellen em uma cena dramática; depois, rouba-lhe também o sangue. Até que, com a trilha sonora sugerindo o canto de um galo e o nascer do dia, ele mesmo se torna cinzas.


Para quem acompanhou o texto até aqui, não ficou nenhum segredo de que Nosferatu é, claramente, plágio adaptação de Drácula, de Bram Stoker. Lançado em 1922, o filme teve boa aceitação, mas mesmo tendo sido uma “releitura”, três anos após o lançamento do filme, a família de Stoker entrou com um processo acusando os produtores de plágio. Ganharam a causa e todas as cópias do filme foram compradas e enviadas à família.

Para nossa sorte, algumas chegaram aos EUA, e após diversos processos de restauração com as cópias restantes, o filme ganhou uma versão remasterizada, com filtros coloridos, que de acordo com desejos do diretor, representam hora o dia ou cenas internas (amarelado), hora a noite (azulado), hora o amanhecer e o entardecer (alaranjado e avermelhado).


Pelas próprias características do cinema mudo e da época, as atuações têm seu quê de teatrais, para passar as devidas informações ao público, e a trilha sonora possui fator de grande importância para dar o tom medonho do filme. Outro elemento que causa medo são as descrições dos intertítulos, com suas letras góticas e textos sombrios.

De uma forma geral, um filme que deve ser visto pelos amantes do gênero e da sétima arte. O espectador comum provavelmente se sentirá entediado, mas com certeza olhará duas vezes para a próxima sombra projetada em seu quarto na madrugada.
Compartilhe:

sábado, 2 de julho de 2016

Memorabília: A carta de Gunnar Hansen para o diretor Donald Jackson, após "O Massacre"

Uma carta datilografada e original, assinada por Gunnar Hansen, "Leatherface" do "The Texas Chainsaw Massacre" está atualmente sendo atualmente vendida em leilão no eBay. Datada de Maio de 1975, escrita para o diretor Donald G. Jackson (O Inferno Chega a Frogtown, 1988) sobre os tramites de um possível papel no filme de Terror de extremo baixo orçamento de Jackson, O Amante do Demônio (1977). A produção do filme e seu visual foram praticamente amadores, as câmeras tremiam, os atores atuavam mal, a maquiagem... Ridícula, mas essa carta vale pela memória. Este foi o segundo filme de Hansen, após o clássico supremo do Massacre.


Nas filmagens de "O Massacre da Serra Elétrica" (1974) estava Daniel Pearl, que tinha sido fotógrafo do filme. Jackson foi um grande fã do filme e sempre mantinha contato com muitos dos veterinários que atuaram e produziram, incluindo o diretor Tobe Hooper e a estrela Scream Queen do filme, Marilyn Burns.



O endereço de Hansen dizia: 1803-B W. 37th Street, Austin, Texas. E ele usa "Texas Chainsaw Massacre" como o sua referência de atuação primária. Hansen, eventualmente, interpretou um personagem chamado de "Professor Peckinpah" no filme, "The Demon Lover", um de seus poucos créditos em filme nos anos 70, dentro ou fora do gênero.

Esta carta foi deixada com alguém da produção do filme, quando Jackson faleceu, há muitos anos. É 100% original e o vendedor promete por sua reputação na linha pela autenticidade da carta.

As medidas da carta são: 6x9 e está em ótima condição - sem rasuras, manchas, etc., com apenas um canto dobrado. Também inclui o envelope original, que Jackson datou como "28/05/75".



O envelope mede 3x6 polegadas. Envelope foi rasgado no lado direito, não tem marcas de enrugação e em boas condições.

Remetente:
Gunnar Hansen
1803-B W. 37th. St.
Austin, Tx. 78731

Destinatário:
Don Jackson
Wolf Lore Cinema, Ltd.
P.O. Box 717
Adrian, Michigan 49221

Carta em tiragens, melhorada e traduzida:



Querido Mr. Jackson,

  Daniel Pearl, o cinematógrafo do ''Massacre da Serra Elétrica'', me disse que ele estará trabalhando consigo num filme, "Amante do Demônio" neste próximo verão.
   Ele disse que você ainda deveria estar procurando atores.



Como você deve se lembrar, eu interpretei Leatherface no ''Massacre''. Eu gostaria de trabalhar neste filme se ainda estiver precisando para personagens. Se estiver interessado, me deixe saber. Eu ficaria feliz em enviá-lo fotos ou qualquer outra informação que precisar enquanto for preciso.

Atenciosamente,
     Gunnar Hansen (assinado)



Uma peça rara e fascinante das primeiras memorabílias de "Texas Chainsaw Massacre". Você pode comprar também (no momento está na faixa de 100 dólares) pelo eBay./a>.
Compartilhe:

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Crítica: Deranged – Confissões de um Necrófilo (1974)


Título Original: Deranged
Direção: Jeff Gillen, Alan Ormsby
Roteiro: Alan Ormsby
Estrelando: Roberts Blossom
Lançamento: Fevereiro de 1974
Duração: 1h, 22 min.
Orçamento: 200 mill (estimado)
Local de Filmagem: Enniskillen, Ontario, Canadá
Linguagem: Inglês americano


No filme de hoje, um "sujeitão" muito do estranho protagoniza um dos filmes mais curiosos com temática de necrofilia e necromania dos anos 70. Confissões de um Necrófilo, co-dirigido por Jeff Gillen e Alan Ormsby. Uma adaptação bem original (e não tão biográfica) do Ed Gein, transladado em um nome diferente para si e suas vítimas, segundo o próprio narrador: Para "proteger" a identidade e família das vítimas. É algo mais ou menos igual ao que foi feito em The Deliberate Stranger (1986), sobre Ted Bundy onde mudam-se os nomes.

"Essa é a história de Ezra Cobb: Assassino, violador de corpos e certamente necrófilo... O açougueiro de Woodside".

Grande parte desse filme pode ser resumido pelas cenas iniciais e numa leve descrição do que se sucede, em sua premissa é talvez um dos filmes mais simples do gênero de Terror da primeira parte dos anos 70.



Aos 10 anos, o pai de Erza faleceu, só moravam ele e sua mãe numa casa, Amanda Cobb. Extremamente dependentes um do outro, após ela sofrer de um derrame cerebral, a mãe de 'Ez' acabou com paralisia nas suas pernas. Por 12 anos, 'Ez' cuidou dela. Tido pela pacata cidade como um filho devoto, mas conforme o filme descreve: "Essa devoção mascarava uma crescente psicose que veio à tona quando sua mãe faleceu".

Sua mãe, super-protetora, criou uma dependência e apego emocional sem precedentes, na vida de Ezra. Como um passarinho muito bem adestrado ao seu cubículo de gaiola, que acredita que voar é um pecado, Ezra seguia os conselhos de sua mãe à risca até o último instante de vida, e principalmente depois dele.



E assim se sucede, após repetidos anúncios desacreditados por Ezra, de que sua mãe iria mesmo morrer, e eis que a hora chega, ela morre. E então o vínculo super-afetivo entre ambos, último pilar da sanidade de Ezra se parte ao meio, dando margens reais para um psicopata nascente que de tão ingênuo, infantil e subestimável, não levaria a menor suspeita do maior desconfiador.

Numa cena inicial que explica bem a relação mãe-filho desse filme, onde não há aceitação alguma sobre a ideia da morte (e muitas famílias sofrem com isso na vida real, acreditem), já não há mais somente uma dependência emocional forte, mas da presença física, de tê-la por perto, seja como for. Com esse drama familiar e suas absolutas esquisitices, podemos nos conectar à este filme.



"O preço do pecado é a gonorreia, sífilis e a morte". O que diabos isso tem a ver com qualquer coisa?!

Eu acho bacana essa representação irônica que o filme enfatiza tanto do que é uma relação nada saudável familiar baseada em superproteção, e a não-aceitação da morte, duas coisas que são mais sérias e intensas do que parecem... E reais, absolutamente reais.

Ezra é excêntrico desde sempre, um sujeito de natureza intrépida por mais que sorrateiramente tímida e solitária, ele possui um comportamento social mais do que normal aos olhos da pacata cidade, e até que ele é simpático, mas na sua mente distorcida a sociopatia toma forma a cada nova ida ao túmulo de sua mãe.

"Um mês passou. Seis meses. Um ano, Ainda assim, Ezra se recusava a aceitar a morte de sua mãe. Ele visitava a sua sepultura quatro ou cinco vezes por semana. Em casa, ele continuava somente a imaginar que ela estava apenas viajando. Ele mantinha seu quatro limpo, brilhando e quentinho, pois tinha certeza que ela voltaria para ele. Ele sonhava com ela, em desespero, até escrevia cartas para ela".



Uma das belezas do filme é sua narração, com uma introdução que ajuda a entendermos melhor o filme, sem a necessidade de criar novos meios. Infelizmente, a narração só tem começo e meio, não há uma despedida apropriada (e na minha opinião, é um final desagradável), quando só vemos em texto e ouvimos após algumas cenas de slow motion. O narrador sumiu de cena, deu o oizinho, tchauzinho não. Um tanto quanto grosseiro, e soou abrupto, mas ok.



Como o primeiro filme lançado a se basear de alguma forma em fatos do serial killer Ed Gein, um dos mais famosos psicopatas de Wisconsin. O filme foi sucedido logo após pelo clássico Massacre da Serra Elétrica, ambos bem parcialmente influenciados pelo caso real e alavancados pela influência do merchandising de Gein. No caso de Deranged até com cenas vistas em fotos da perícia no caso de Gein, como quando pendurava elas de ponta-cabeça e cortar suas entranhas, há semelhança também pelos cenários gélidos.

Ao contrário do que pode parecer, esse filme não serve que em quase nada como uma biografia propriamente da história do Ed Gein. Quase nada mesmo, há muito sensacionalismo em suas impressões... Mas não deixo de achá-lo subestimado e com pouco reconhecimento.

Texas Chainsaw foi lançado alguns meses depois, com orçamento ainda menor, mas a produção de ambos os filmes aconteceu quase que no mesmo período, no ano de 1974, então era o mesmo cenário, e embora tenham similaridades incríveis, são dissonâncias de cenografia extremamente diferentes: Um é no gelo congelante da fictícia Woodside (referente a Gein, claro), e outro no calor árido e torturador.



Esse é um filme de ironias, satiriza diversas características da família tradicional, conservadora e super protetora, da hipocrisia viciosa da vida sobre a morte, e até o funeral, de alguém que quem vai e não se importa muito com a cerimônia.

Eu me espantei com diversas semelhanças entre esse filme e o Massacre, como, no maior exemplo: A agoniante cena do jantar. Sim, tivemos duas cenas rigorosamente semelhantes, na ideia, e filmadas praticamente na mesma época. Isso é raríssimo no cinema, quando não há plágio. Em descrição: Uma vítima qualquer (feminina) é levada para um especial jantar, raptada por algum lunático. Os convidados? Corpos pútridos sentados à mesa. Amarrada, a vítima é torturada com aquele terror psicológico (embora nesse filme não haja tanta ênfase ao Terror em si). E o insano anfitrião da festa ainda segura um porrete, neste caso um osso humano, no outro um pedaço de madeira.

Detalhe: Após a vítima tentar fugir, o psicopata veste uma de suas "máscaras" e sai em disparada atrás dela, casa à fora. Em outra cena, Ezra pega sua picape (lembra à do Massacre por sinal) e coloca a vítima envolta num saco de pano (saco até semelhante). Por essas e outras, é muita coincidência para pouco filme.



Sei lá, no caso de Deranged, o "vilão" não é tão mal assim, ele só é um oportunista de sorte, age na brecha da plena confiança dos seus conhecidos, na vã convicção dos outros de que ele seria incapaz de machucar uma mosca. Apesar de tudo, as coincidências com o Massacre param por ai. Este filme tem outro enfoque, o âmago é Ezra, e toda sua psicopatia, insanidade. Como poucos filmes fazem, é o universo e perspectiva do caçador e não da pressa. Perde um pouco da capacidade de criar um suspense mais empolgante e envolvente, mas é autêntico e tem um propósito claro, diferenciado do padrão desde a premissa. Às vezes até previsível, mas sem perder o encanto. Pelo menos comigo, o filme passou num piscar de olhos.

Esse filme, sem dúvidas, doentio. Mas vejo como uma peculiaridade boa no gênero, embora não explore o canibalismo de forma alguma, não seja tão chocante pela violência, é ainda assim, interessante e merece atenção de quem curte Terror antigo.



A atuação do já finado ator Roberts Blossom como lunático Ezra Cobb é excelente, e é o eixo central de tudo de positivo nesse filme, analisando pelo conjunto da obra. Simplesmente protagonizou quase que todo o filme sozinho sem perder a atenção, com suas feições muito francas e espontaneísmos profissionais de interpretação. Uma escolha justa para esse papel... E pensar que Harvey Keitel Christopher Walken ainda foram escalados numa audição para o papel do filme (sim, é verdade). Definitivamente não dá nem para imaginar um filme com eles de 'Ez'.

Eu não sei o que seria desse filme sem os olhares e caretas honestas de Roberts Blossom... Com certeza, não isso tudo.



Uma das maiores esquisitices desse filme é o tema de trilha sonora do 'Ez'. Ficou doentio. Alguém decidiu genialmente que uma versão mórbida de órgão instrumental da "Rude Cruz" (Old Rugged Cross – um conhecido hino da harpa cristã antiga), ficaria legal nas cenas em que ele perde (ou está para perder) sua sanidade ou uma vítima. Ficou bizarro... Mas no bom sentido.

Se o Massacre tem o ranger de ganchos psicóticos, esse tem a porra do hino, e provavelmente, agora, toda vez que eu ouvir essa musiquinha vou me lembrar do filme e do 'Ez'.

Uma outra referência de filme que não pudi deixar de associar com Confissões de um Necrófilo é o Maniaco (1980), acredito que houvera enorme influência desse filme, com seu personagem centrado, emocionalmente desequilibrado e sua mãe torturadora vinda da cova.



Uma cena nesse filme é bem engraçada, Ezra janta com seu vizinho enquanto ele lê o obituário, em sua sã ingenuidade, trama um plano de retirar um corpo do cemitério. Uma insanidade que em sua mais pura franqueza soa como piada instantânea, o extremo de subestimação de um aparente bom mocinho, digno do caso mais extremo da simpatia de Ted Bundy.

O legal do Deranged é que, como falei, não tem grande enfoque nas vítimas do Ez, e sim, no próprio vilão, suas preocupações, sua demência na mórbida mente de colecionar cadáveres, sempre estranha e de relação perturbada, unilateral. Mas morra quem morrer, sem pudor algum, o filme ainda é corajoso de mostrar isso, até nisso o Maniac se espelhou, no caso, simplesmente trocando corpos por manequins, e os cenários do cemitério, lembram rigorosamente.



Algo que eu não curti muito nesse filme é justamente como as vítimas de Ez se criam, ele é todo o oposto de caras como Leatherface (por mais que também tenha uma mente de criança) e Frank Zito. Ele só é alto, mas não parece ser forte, não parece que teria a paciência física necessária para percorrer a todo o vapor, vários hectares, suas pressas atordoadas com motosserra nas mãos, muito pelo contrário. A conveniência chata é Ez agindo em vítimas mais estúpidas ainda que o convencional, mais ou menos igual ao que vimos em Noite dos Mortos-Vivos, Bárbaba sempre atônita, sem reações, de forma surreal demais para alguém que se importa mais em sobreviver do que se escandalizar. Um clichê do Terror muito incômodo, no meu ponto de vista.



Claro, há de se reconhecer, esse filme não é nenhuma obra-prima absoluta e suprema do gênero de Terror, e nem um dos mais reconhecidos de sua década, e aliás, diversas coisas nem sequer fazem sentido... Mas é um filme que ninguém lembra na hora de comparar com Texas Chainsaw, por exemplo.

E conforme passamos a ver um Ez mais escroto a cada cena, o filme nunca deixa de dar ênfase aos seus conflitos existenciais e familiares. Como filme de baixo orçamento que é (maior em vezes, a verba, do que a do Massacre), até que não é má produção.



As atuações são razoavelmente boas, a cinematografia é um puro ar de anos 70 (e quem gosta tem que conhecer), a história é original, os personagens "intromissivos" ao espectador.

Para mim só não se consolidou como clássico do gênero por ser ameno demais na linguagem, não apela (quase nunca) para a extrema violência, e é mais permeante de um olhar da doença mental de Ezra e não a maldade dele em si. Também acho que faltou um desfecho mais impressionante, do início ao meio cria-se uma expectativa até que muito boa, mas não correspondida.



E nota: Poderiam tê-la correspondido, já que digrede bastante de "Filme baseado em fatos reais" para "Filme influenciado por casos de Ed Gein". Vou deixar o Trailer oficial a seguir.

AVISO: É cheio de cenas que dão spoiler do filme.

Compartilhe:

conheça

https://hellblogdavan.blogspot.com.br/

+Parceiros

http://www.horrorgrafia.com.brhttp://www.attackfromplanetb.com/
http://www.bibliotecadoterror.com.br/
http://phantasmbr.blogspot.com
http://grindhousebrasil.blogspot.com.br/
https://imagemcamera.wordpress.com/
https://terrormania42.wordpress.com
http://uhpblog.blogspot.com.br/
http://cerebroinfernal.blogspot.com.br
http://mausoleudoterror.blogspot.com.br/
https://pulpmetalmagazine.com/
https://shedemonszine.blogspot.com.br
http://sessaodomedo.blogspot.com.br/