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Crítica: Nosferatu (1922)


Título Original: Nosferatu, eine Symphonie des Grauens
Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Henrik Galeen (screen play)
Baseado: Bram Stoker, "Dracula"
Estrelando: Max Schreck, Greta Schroder, Landshoff
Lançamento: 17 de Fevereiro de 1922 (Holanda)
Duração: 1h, 34 min.
Origem: Alemanha



 “Da semente do Demônio, surgiu o vampiro Nosferatu, que vive e se alimenta de sangue humano. Ele vive em cavernas horríveis, túmulos e caixões”.


Por Marina Alvarenga Botelho


Embora não tenha sido o primeiro, Nosferatu (1922), de F. W. Murnau, é considerado, por muitos o precursor de “filmes de vampiro”.  Sua importância para a história do cinema, e principalmente para o gênero terror, é inegável, não só pelas inovações técnicas e estilísticas que, posteriormente, aparecerão em filmes noir, mas por servir de inspiração para muitos cineastas.
O filme é parte do movimento estético denominado “expressionismo alemão”, que surge na Alemanha no final do século XIX, em diversas artes, como literatura, pintura e cinema. Emerge como uma crítica à sociedade burguesa, racionalista e mecanicista, e encontra na fantasia, no gótico e nas distorções do “real”, sua forma de expressão.


Friedrich Wilhelm Murnau foi um dos principais diretores dessa época, não só pelo tema de seus filmes, mas pelas experimentações cinematográficas de um meio que ainda era bem jovem, com seus 30 e poucos anos de existência. Por vezes, o filme, que é mudo, pode causar tédio ao espectador atual, que está totalmente acostumado com o terror explícito e o susto intenso vindo da antecipação. Mas é um bom filme para se falar de medo.

O filme conta a história de um casal, cuja moça, Ellen, é a própria encarnação da pureza – “por que você as matou, flores tão bonitas?”, diz ela ao marido quando ele lhe entrega um buquê de flores. Hutter, o marido dedicado, trabalha com um agente imobiliário, que o envia para a Transilvânia para vender imóveis ao Conde Orlok, que demonstrara interesse em comprar uma grande casa na cidade.


Conde Orlok é Drácula Nosferatu, um sujeito/vampiro muito esquisito, alto, magro, muito pálido, com longas orelhas, nariz grande e curvado, dentes frontais salientes, dedos compridos e finos (e uma carinha super fofinha). Uma figura bizarra e lenta, bem suspeita à primeira vista. Mas Hutter parece estar sempre feliz e, mesmo tendo um cara querendo chupar o sangue de um corte que sofreu em seu dedo, acha que está tudo bem.



Os acontecimentos estranhos não param por aí. Uma foto de Ellen cai próxima ao Conde, que fica fascinado pela mesma e diz: “Que belo pescoço sua mulher tem, vou comprar a casa vazia em frente a sua”. Já teria dado tempo para sair correndo, mas Hutter, feliz com a venda, não conseguiu ligar os pontos, e acaba se tornando uma vítima de Nosferatu. Passa a ser perturbado por sonhos horríveis, e com as duas picadas no pescoço, escreve uma carta a Ellen achando que fora picado por mosquitos.

É a partir daqui que começamos a entender o poder de Nosferatu. Os pesadelos passam a ser constantes, tanto para Hutter, quanto para Ellen. A moça pressente que algo ruim está para acontecer e sonha com a figura esbranquiçada de Nosferatu, que começa já a perseguir sua alma antes mesmo de chegar à cidade.


Com o passar do tempo, Conde Orlok sai de mudança para a cidade do casal, enquanto Hutter, meio confuso, começa a entender o que está acontecendo e tenta voltar correndo para sua amada. O Conde vai de navio, dentro de seu caixão, e coisas terríveis começam a acontecer.

O que a tripulação chama de “praga”, nada mais é que a morte lenta chegando a todos eles. Cada cena em que Nosferatu aparece é única e assombrosa, capaz de deixar o espectador vidrado. Esse vampiro, que vem da própria semente do diabo, é uma criatura das sombras, literalmente. Sua silhueta é mais poderosa ainda do que sua imagem, e a forma como vai espalhando seu terror e fagocitando suas vítimas em sua própria sombra, é capaz de tocar nossos medos mais profundos.

Cada rápida aparição de Nosferatu trabalha diretamente com o nosso medo. Medo de ser a próxima vítima, medo de ser controlado por ele – não há como fugir. Se ele gostar do seu pescoço, já era. No porão do navio, cenas clássicas: uma aparição do vampiro e uma levantada de supetão do caixão, algo sobrenatural.


(A montagem, nesse momento do filme, fica um pouco confusa, ainda com resquícios de um primeiro cinema e a inexistência de uma montagem paralela convencional, com a aparição de um doutor/professor).

Quando o navio chega à cidade, já não há uma vivalma a bordo. Todos morreram por causa da “peste” - chegam à conclusão os oficiais da lei. Conde Orlok sai do navio ainda durante a madrugada, carregando seu próprio caixão – o que é incrível, beirando a comicidade, pois nunca vi nenhum outro vilão fazendo algo do tipo. Sua mera presença na cidade começa a aumentar sua influência nas almas controladas por ele. O agente imobiliário que havia mandado Hutter à Transilvânia acaba sendo enviado a um hospício, tamanha loucura que se apossa dele. Ellen também vê seus pesadelos aumentarem e seu coração inquieto. Enquanto isso, Hutter luta para chegar à cidade e salvar sua amada.


A essa altura, a cidade está em toque de recolher, cada um trancado em sua própria casa, todos com medo da “praga”. Já são vários caixões sendo carregados pelas ruas com os corpos das vítimas do vampiro, que durante a noite, consegue chegar ao quarto de Ellen. Em mais uma aparição de tirar o fôlego, o clímax do filme é de deixar a audiência silenciosa. A sombra de Nosferatu entra no quarto, rouba a alma e o coração de Ellen em uma cena dramática; depois, rouba-lhe também o sangue. Até que, com a trilha sonora sugerindo o canto de um galo e o nascer do dia, ele mesmo se torna cinzas.


Para quem acompanhou o texto até aqui, não ficou nenhum segredo de que Nosferatu é, claramente, plágio adaptação de Drácula, de Bram Stoker. Lançado em 1922, o filme teve boa aceitação, mas mesmo tendo sido uma “releitura”, três anos após o lançamento do filme, a família de Stoker entrou com um processo acusando os produtores de plágio. Ganharam a causa e todas as cópias do filme foram compradas e enviadas à família.

Para nossa sorte, algumas chegaram aos EUA, e após diversos processos de restauração com as cópias restantes, o filme ganhou uma versão remasterizada, com filtros coloridos, que de acordo com desejos do diretor, representam hora o dia ou cenas internas (amarelado), hora a noite (azulado), hora o amanhecer e o entardecer (alaranjado e avermelhado).


Pelas próprias características do cinema mudo e da época, as atuações têm seu quê de teatrais, para passar as devidas informações ao público, e a trilha sonora possui fator de grande importância para dar o tom medonho do filme. Outro elemento que causa medo são as descrições dos intertítulos, com suas letras góticas e textos sombrios.

De uma forma geral, um filme que deve ser visto pelos amantes do gênero e da sétima arte. O espectador comum provavelmente se sentirá entediado, mas com certeza olhará duas vezes para a próxima sombra projetada em seu quarto na madrugada.

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